Quando comecei minha horta urbana

texto publicado na edição de junho de 2013, da revista Vida Simples ed. Abril

Quando aluguei o apartamento, as duas floreiras já estavam na janela. Decidi plantar ali, mas, por muito tempo, elas serviram só para juntar água da chuva e aparar bitucas de cigarro dos amigos. Eu sabia que, do ponto de vista da sustentabilidade, uma horta urbana era “bastante legal”, mas ainda não tinha entendido o poder de plantar em casa. Ia adiando o projeto, até o dia em que parei para me esconder da chuva em uma loja de jardinagem e aproveitei para comprar dois pacotinhos de sementes.

Lia as letras grandes nos pacotinhos leves: “manjericão” e “hortelã”. Acostumado ao vale-quanto-pesa, me peguei descrente. Procurei data de validade, olhei desconfiado para o velhinho que talvez tivesse me surrupiado R$ 2… Mas não. Nada parecia errado.

Eu tinha uma meta: plantaria manjericão para as macarronadas e hortelã para os mojitos, e, como Scarlett O’Hara, jamais sentiria fome de novo. Nada me demoveria daquela ideia. A não ser chegar em casa e descobrir que faltava algo fundamental: a terra. “Paciência”, me diziam os pacotinhos” – um deles aberto, pois não aguentei a curiosidade de saber como eram as sementes de hortelã. No fim, tudo deu certo: na semana seguinte, comprei um saco com dez quilos de terra cheirosa, que acabaram esparramados no tapete da sala, antes de conseguir encher as floreiras.

Plantei. Plantei exatamente como sugeriam as instruções. Levei a sério a história de regar e fui além, batendo um papo com as floreiras. No entanto, nada de as plantinhas germinarem. Comecei a ficar apreensivo. Me lembrei do feijão no chumaço de algodão que plantei na infância: quanta eficiência! Uma semana e já era uma miniatura do pé-de-feijão da história. Eu tinha calculado que a terra, sendo mais fértil que o algodão, e a hortelã, sendo menor que o feijão, já me dariam umas folhazinhas apontando na terra nos primeiros dez dias. Mas não. “Tem que morrer pra germinar”, dizia o Gil. Me peguei confundindo a letra da música e achando que as ervas só brotariam depois que eu estivesse morto.Não era para tanto. Finalmente elas brotaram, totalmente desiguais, dando uma aula avançada de “quem manda aqui é a natureza”. Humilde, tomei a lição e segui regando. Plantei umas flores para animar a outra ponta da janela e me distrair enquanto aprendia algo sobre amor incondicional: era preciso regar sem cobrar das plantas que florescessem. Regar o invisível.

As pessoas e as plantas
Comecei, então, a fase dois do meu aprendizado. A convite de um amigo querido e muito sábio, fui passar o Natal em um sítio de produção de alimentos orgânicos na beira do Rio Pardo, em Caconde, interior de SP. Não quis dar muito na cara, mas me sentia como o Daniel San de Karatê Kid, totalmente despreparado, querendo aprender a colher o abacaxi, organizar a composteira, cuidar da agrofloresta e do jardim de ervas, tudo ao mesmo tempo e sem a menor intimidade com as ferramentas.

Em volta da mesa, esperando o jantar, agradecemos de coração honesto pela comida fresca que estava sendo servida. Me lembrei das palavras de Maria Regina Godinho, que forma turmas de agricultura urbana desde 2007, em São Paulo: “é como se a pessoa precisasse se abrir para o carinho que é lidar com a terra”. Até então, eu não tinha me dado conta de que aqueles pacotinhos leves que comprei do velhinho, naquele dia chuvoso, estavam cheios de carinho. Agora, eu me sentia o Marco Polo da agricultura sustentável, incumbido de levar à cidade um pouco do cheiro do Rio Pardo que ficou no meu All Star. Quando cheguei em casa e fui plantar na floreira a semente da maçã que acabara de comer, um espanto: tinha nascido, sozinho, um pé de couve ali.

E então já era o ano novo, e os jornais traziam a notícia de que agricultores urbanos estavam pleiteando que o novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, incluísse no Plano de Metas que os espaços urbanos fossem usados para abrigar hortas comunitárias e composteiras. A demanda partiu de um movimento de pessoas que acha que os espaços públicos devem servir, também, para plantar.

Eram grupos como o dos Hortelões Urbanos, que colheu mais de 100 kg de chuchu em uma horta na Praça das Corujas, na Vila Beatriz, em São Paulo. O grupo tem outras iniciativas, como a dos Ciclistas, na Avenida Paulista, e a da Vila Pompéia. Segundo Claudia Visoni, uma das fundadoras dos Hortelões, a força dessas iniciativas é tanta que, se todos os espaços urbanos ociosos da capital paulista fossem usados para o cultivo, 40% da demanda alimentar da cidade seria suprida pela produção interna.

Pesquisando por aí, fui ver que o mundo todo já estava atento para essas possibilidades. Vi iniciativas como os Seeds Savers (“salvadores de sementes”), nos Estados Unidos, que criam bancos de sementes para salvar a biodiversidade. Vi agricultores urbanos na Espanha plantando nos espaços que ainda ousavam ser cinza, e iniciativas famosas como a do Incredible Edible, na cidade de Todmorden, no Reino Unido, Horta pontual, nos encontros ao meio-dia do terceiro domingo de cada mês.

Cheguei a achar que estivesse atrasado para a revolução, mas a Letícia me convenceu do contrário. Ela se apresentou como Letícia Momesso e disse que fazia jardins que cabem em qualquer lugar. Quando cheguei na Peperômia “empresa que ela criou para abrigar o projeto”, quem me recebeu foi o Jorge Ben Jor, no rádio: “A terra é seu nutriz receptáculo. Sua força ou potência está inteira, se ela é convertida em terra”.

O plano de Letícia é aproximar pessoas e plantas e, a partir desta relação, retomar uma forma saudável de viver nas cidades. “Principalmente em São Paulo”, disse, “onde as pessoas carecem de saúde e de contato com a terra”. Com as oficinas de jardins, o projeto prova que, para plantar, basta querer. Vi jardins plantados em sofás e até em pingentes de colar. E aprendi: plantar une as pessoas. Com mais hortas, os laços comunitários correriam sério risco de se fortalecer.

A seu tempo
Lá em casa, meus pés de hortelã e manjericão já renderam belas receitas. O pé de maçã está pequeno ainda e tenho tempo antes de me descabelar a respeito do que fazer com ele. A flor morreu e a couve eu não tive coragem de comer. Estou esperando a visita de um amigo que me disse para parar de onda e comê- la logo – farei para ele um jantar com couve refogada.

Agora, estou mais atento à sazonalidade dos alimentos. Faz diferença saber que em tal época a cenoura cresceu menos, mas a batata está mais bonita. A gente vê que o meio está oferecendo aquele alimento prioritariamente. E que nosso corpo, harmonizado com isso, vai trabalhar melhor. No fim, é como diz a Thereza Peric no livro Se o Jardim Voasse Não Seria Jardim, Seria Avião: “basta uma só flor… e já é jardim”. Basta um manjericão, e já é horta. Na minha janela.

Danilo Sanches é jornalista e músico. Com sua horta na janela, aprendeu que em vaso vazio não nasce flor.

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Jacaré que dorme vira blusa da LaCoste

Não que fosse o caso de sair pela rua gritando !Bater em retirada! Não isso. Mas um incenso de neo-ruralismo-pós-moderno está se instaurando de forma inegável e eu aqui, bancando o purista. Mas quando alguns punhados de milhares de pessoas começam a ser demitidas de seus empregos e são estimuladas a sentir o cheiro de chuva numa tarde de terça, uma ideia coletiva vai ganhando forma no compartilhado inconsciente.

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Em São José dos Campos já tem construtora com projeto de “ecovila”

Não é só você vendo o quanto é bela a vida no mato pelo Facebook. Onde eu possa compor muitos rocks rurais (apud. REGINA, Elis).

De novo, eu, o purista: porras, mas é claro que eu também quero uma casa no campo. Mas se eu falo isso alto demais, uma imobiliária de Atibaia me ouve, um magnata de Jundiaí me estalqueia nas redes sociais e lançam (como se já não estivessem lançando) o Minha Ecovila, Minha Vida.

E aí, meu amigo: botaram no bolso, segunda vez, a revolução dos hippies. E dessa vez mais fácil, dada a milesimavançadíssima tecnologia de monitoramento de pessoas que hoje está em vigor. E pulsando.

É tempo de restaurar. Aqui onde eu estou (não sei aí onde você está), há menos de 200 anos era mato. Minha casa inevitavelmente seria no campo. Então a questão não é de geografia, mas de recursos disponíveis. 

O papo é: não vá para o mato. Faça nascer o mato em volta de você. Seja radical. 

Seja radical, porque foram radicais ao estabelecer o cimento como substrato pardrão. E que associaram terra a sujeira.

Os olhos brilhando de alguém que diz “um dia vou largar tudo (talvez vender uma ou outra posse de menor valor) e vou pro mato”, são olhos de colonizador. E o colonizador vai continuar matando o índio. Dentro de você.

As iniciativas rumo ao comum, ao simples e à terra são favoráveis. Sempre favoráveis e nem sempre tranquilas. Porque envolvem o descascar de uma cebola; de níveis e lágrimas profundas. E no ir disso, colhe-se muito mais que tomatinhos na varanda (tão tão mais saborosos!): colhe-se a si mesmo.

Mas o colonizador mora na beira do caminho. E espreita o menor descuido. E laça os sonhos, transformando-os em um projeto de ampliação da colônia. E do tomatinho na varanda, o coração pula pra um sítio verdinho cheio de mato nascido e crescido no chão. E árvores. Abandona o concreto pra trás, destruído.

Debaixo dos seus pés. Agora. Tem terra e mato potenciais. A terra sempre vai dar e sempre vai prover: promessa do arquiteto.

Não é à toa que os projetos mais caipiras das grandes cidades (o hype do hippie) são, via de regra, gentrificadores.

Ricos bons, pobres maus

Tudo bem você não acreditar em Papai Noel. Fadas, pulseiras energizadas e marketing multinível também não é algo do qual seja um problema duvidar. E tudo bem também você não acreditar em coisas que o pessoal da esquerda fala. Não, a esquerda não está certa; mas talvez ela esteja um pouco mais próxima de formular uma pergunta que realmente questione.

Ah, não é do PT que estou falando, tá? É da esquerda, da contestação do status quo.

Agora, chamar a luta de classes de conto de fadas maniqueísta (já é vandalismo) chega a soar desonestidade. Sim, há poucos dias alguém me disse, no meio de um debate, que tem “preguiça de debater com quem vem com argumentos do tipo pobres bonzinhos, ricos maus”. Então, amigos. Eu vou mais uma vez falar daquele negócio lá de expandir o paradigma. (Nota mental: criar emails spam “enlarge your paradigma”.)

Quem tem medo?

Sim, porque a questão não é o maniqueísmo, amigos. A questão é o umbiguismo classe-média. Não, pobres não são bonzinhos. Não são coitados. E é exatamente este o ponto: eles são gente. São gente, porra! Qual é a dificuldade?

O contexto da discussão da qual estou falando era o Bolsa Família. A tônica do papo era que o Programa é assistencialista e parte de uma política paternalista. Não sou favorável a politicas paternalistas, antes que venham com isso de novo. Mas não é essa a questão. A questão é que o desenvolvimento social é impossível ou ao menos gravemente dificultado por questões de classe.

Estamos no inverno. Então vamos pegar o inverno como exemplo. Hoje fez 5 graus em São Paulo. Hoje, apenas hoje, amigos, existem pessoas que não têm um agasalho que baste, um agasalho bonito, um agasalho limpo, um agasalho para o filho, um agasalho pra ir trabalhar… Não tem opção. Não tem. Ele não é um coitado, apenas não tem opção.

Por que?

Porque o dono do Banco Renner, por exemplo, agora é o Edir Macedo. Edir Macedo, rico, ganha dinheiro com empréstimos para pobres. E eu estou falando dos pobres que têm crédito no mercado, agora. Mas, para que você saiba, há também os que não têm. E eles são maioria.

Crédito? É luxo? E casa? Vamos falar da especulação imobiliária?

Os ricos que enriquecem com a especulação imobiliária não são maus. Mas é inegável que eles impõem um impeditivo claro e objetivo para que os pobres se livrem de empobrecer. E esses pobres vão ser relegados às regiões das cidades com menor infraestrutura. Ficam mais distantes de uma universidade, por exemplo. Não é impossível (para alguns), mas é mais difícil. Os ricos não são maus, mas eles se esforçam com suas grandes forças para alargarem ainda mais seus patrimônios em detrimento da subsistência das pessoas pobres. Se a relação não está clara para você, só responda uma coisa: quem é que paga aluguel por necessidade? Quem é que pega empréstimo em bancos e financeiras por necessidade?

“Ah, mas a infraestrutura é papel do governo.”

Sim, mas o governo é composto pelos ricos, oras. Eles fazem empresas para “prestar serviços” à população e enriquecer ainda mais.

Não é um conto de fadas maniqueísta. É uma constatação clara, objetiva e comprovável de que não há livre concorrência no capitalismo. Os ricos enriquecem sobre a necessidade dos pobres. Se não direta, indiretamente. E a sede de poder e riqueza deles é insustentável. E alguém sempre paga a conta.

E quem é que paga a conta?

E quando eu falo sobre ampliar o paradigma, estou falando de sair da visão de mundo estreita. Sair da ideia classe-média de que “se eu pago impostos, sou honesto”. Se você paga impostos, você contribui para enriquecer os ricos. E não, a solução não é sonegar impostos (a não ser que isso seja um instrumento revolucionário, mas é outro papo). A solução é tirar da cabeça a ideia de que o mundo é só o seu bairro, a sua faculdade, o seu círculo social.

Os pobres existem. E enquanto você está dormindo, eles estão sendo pobres ainda. E entre os pobres e violentados existem mulheres. Por isso é importante ressaltar que não é possível existir um feminismo liberal ou feminismo de direita. E para quem ainda tem dúvida se o feminismo de direita é uma contradição, pode continuar a leitura aqui.

Beijo.

O riso dos mesmos

Humor pra rir. Rir pra ser feliz, porque a gente tem mais é que ser feliz!

Pera. Calma. Vamo devagar, porque tem boi nessa linha. E é um boi perverso, digo, é uma perversidade que se esconde na sombra do humor. Se esconde atrás da neblina de hiperventilação que o riso causa. E o humor é perverso à medida que destaca diferenças, defeitos, erros ou outros conceitos baseados em padrões hegemônicos.

Padrões hegemônicos = regras, conceitos, definições do que é certo baseadas nas ideias dos grupos dominantes política, econômica e intelectualmente.

E aí, a gente pode pensar: não existe humor? Estamos fadados à patrulha do politicamente correto? Que mundo sem graça. Me dá meu Rivotril.

Vejam, eu fiz uma piada. E ela pode ter sido bastante perversa. Porque eu sei bem o quanto sofre alguém que depende de um remédio de indicação psiquiátrica. E por ela, peço desculpas. Usei de exemplo para começar a falar desse assunto por um viés diferente.

Falar do humor pelo viés do amor. Falar do riso dos mesmos, que ainda e ainda riem das mesmas coisas e oprimem os mesmos grupos e alardeiam as mesmas velhas ideias. E aí, fizemos assim, em forma de aforismos mesmo, beijo.

Vem comigo.

O único humor que não é perverso é aquele que revela as contradições.

Não é engraçado rir de alguém que está sofrendo. Mas pode ser engraçado rir de alguém que está fazendo algo absurdo e que contradiz a lógica.

Quem ri de alguém que está sofrendo, não quer a felicidade dela/dele. E aí, por não querer a felicidade das pessoas, apelam e reforçam as situações que geram sofrimento nelas.

Quem ri do outro, alardeia que possa ser verdade que as diferenças sejam desqualificantes. Eles reproduzem e fazem a manutenção das opressões. E as opressões são fonte de sofrimento.

Então, as piadas “fóbicas” são, na verdade, a comemoração do sofrimento alheio. Porque não é possível que alguém que destaque jocosamente uma situação vivida pelo outro, não identifique que há sofrimento ali.

Seria como tentar rir de um pizzaiolo porque ele joga a massa da pizza para cima enquanto a prepara. Não há percepção de humor em desqualificá-lo por essa ação.

E não há felicidade em rir do sofrimento alheio.

Quem ri de quem sofre, odeia a pessoa destacada. E então se odiaria naquela situação também.

Inclusive, contemplando a possibilidade de se odiar, seu amor próprio não é incondicional, logo não é amor.

Porque amor só é se for incondicional. Não é possível que as pessoas não vejam isso. Se você impõe uma condição para amar, você não ama, você controla ou quer controlar. O amor só é se for livre.

E você não é obrigado a amar as pessoas. Mas isso só denota o quanto você se ama ou não. Porque se você não se amaria na condição delas, logo, admite a possibilidade de não se amar. Se você admite a possibilidade de não se amar, você não se ama por inteiro. Porque amor e desamor não convivem, se anulam.

Tente rir do que realmente tem graça. Isso é uma proposta, um desafio. Tente amar e ainda assim ver humor. Talvez você chegue mais perto da felicidade.

 

*O texto foi escrito em uma unidade de pensamento incrível por Isabela e Danilo. O título faz referência a este documentário aqui, ó: https://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg

medo

O oposto de mim é o medo
me empodero e sou força
que a todos alcança
e abraça

o oposto de mim é a guerra
pois sou luta

mas se ergue a clava forte
da justiça
e a luta a que não foge
é desvario

o oposto de mim é a rua

estou em casa, oposto, com medo
deposto da rua
pelo ódio, pela força
disposto aos amigos
pelo amor, pela liberdade

Falência

Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Quando eu vejo uma cena dessas, eu entendo porque saí na rua tão jovem, mesmo sem saber ao certo usar as figuras de linguagem ou as construções argumentativas que tenho hoje. Saí na rua contra o “Sistema”, contra “O Capital”. Mas me daria bem mal se me sentasse diante de um cara de gravata que me pedisse para explicar qual era a minha reivindicação.

Eu tinha uma reivindicação, mas ela jamais convenceria a ele, porque ele estava totalmente cooptado e me propunha um debate num campo fértil para sofismas e amargamente estéril para o que eu tinha a dizer.

Eu ia dizer: pare! Apenas pare. Veja, são negros batendo em mulheres. Negros mal assalariados agredindo mulheres já amplamente oprimidas. Veja, são pobres batendo em pobres para proteger ricos. Para proteger interesses hegemônicos.

Pare! Talvez eu gritasse um grito desesperado. Um grito do quadro do Munch. Um grito seco, acre e surdo. Um grito de falência múltipla de esperanças. Talvez eu gritasse e fosse visto como baderneiro, vândalo e desordeiro. Porque não organizei meus argumentos em teses, antíteses, sínteses e mentiras.

Mas não saberia. E ainda não sei. Eu ainda não sei ordenar as premissas e as prioridades quando vejo essa cena. Eu grito por dentro, eu implodo.

Eu não quero mais que negros batam em mulheres. Eu não quero mais que ninguém bata em ninguém. Mas eu não quero principalmente que a desarticulação dos oprimidos atinja esse grau máximo de absurdo.

Pare! Por favor, pare!

vem

vem, vem, a gente sai de fininho
ninguém se dá conta
e a gente se esbalda e se livra
da monotonia

vem, vem, a gente segura a respiração
e fecha os olhos e finge
que está invisível

vem que meu coração te esperaria até
bem depois que o sol se pusesse
mas pro gostoso não há tempo
vem

é simples que nem viver
a gente pega na mão um do outro e anda
sem nada nos planos
sem nada na mente
mestres de nós mesmos
líderes de um bando de um, a dois
a mais de dois
ao mundo inteiro.