Jacaré que dorme vira blusa da LaCoste

Não que fosse o caso de sair pela rua gritando !Bater em retirada! Não isso. Mas um incenso de neo-ruralismo-pós-moderno está se instaurando de forma inegável e eu aqui, bancando o purista. Mas quando alguns punhados de milhares de pessoas começam a ser demitidas de seus empregos e são estimuladas a sentir o cheiro de chuva numa tarde de terça, uma ideia coletiva vai ganhando forma no compartilhado inconsciente.

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Em São José dos Campos já tem construtora com projeto de “ecovila”

Não é só você vendo o quanto é bela a vida no mato pelo Facebook. Onde eu possa compor muitos rocks rurais (apud. REGINA, Elis).

De novo, eu, o purista: porras, mas é claro que eu também quero uma casa no campo. Mas se eu falo isso alto demais, uma imobiliária de Atibaia me ouve, um magnata de Jundiaí me estalqueia nas redes sociais e lançam (como se já não estivessem lançando) o Minha Ecovila, Minha Vida.

E aí, meu amigo: botaram no bolso, segunda vez, a revolução dos hippies. E dessa vez mais fácil, dada a milesimavançadíssima tecnologia de monitoramento de pessoas que hoje está em vigor. E pulsando.

É tempo de restaurar. Aqui onde eu estou (não sei aí onde você está), há menos de 200 anos era mato. Minha casa inevitavelmente seria no campo. Então a questão não é de geografia, mas de recursos disponíveis. 

O papo é: não vá para o mato. Faça nascer o mato em volta de você. Seja radical. 

Seja radical, porque foram radicais ao estabelecer o cimento como substrato pardrão. E que associaram terra a sujeira.

Os olhos brilhando de alguém que diz “um dia vou largar tudo (talvez vender uma ou outra posse de menor valor) e vou pro mato”, são olhos de colonizador. E o colonizador vai continuar matando o índio. Dentro de você.

As iniciativas rumo ao comum, ao simples e à terra são favoráveis. Sempre favoráveis e nem sempre tranquilas. Porque envolvem o descascar de uma cebola; de níveis e lágrimas profundas. E no ir disso, colhe-se muito mais que tomatinhos na varanda (tão tão mais saborosos!): colhe-se a si mesmo.

Mas o colonizador mora na beira do caminho. E espreita o menor descuido. E laça os sonhos, transformando-os em um projeto de ampliação da colônia. E do tomatinho na varanda, o coração pula pra um sítio verdinho cheio de mato nascido e crescido no chão. E árvores. Abandona o concreto pra trás, destruído.

Debaixo dos seus pés. Agora. Tem terra e mato potenciais. A terra sempre vai dar e sempre vai prover: promessa do arquiteto.

Não é à toa que os projetos mais caipiras das grandes cidades (o hype do hippie) são, via de regra, gentrificadores.

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