O equívoco da letra ‘s’

Na pressão do concorrido mercado, os monges copistas que carregavam o penoso fardo de transcrever O Livro dos livros também se permitiam a desleixos e traquinagens e acabavam cometendo equívocos de digitação (typos, como já chamavam os mais moderninhos). E nessa, passavam deslizes que só poderiam ser corrigidos nunca mais.

Copistas que eram, os monges eram exímios copiadores. Correção mesmo era trabalho dos revisores, que já naquelas priscas idas não iam bem das pernas enquanto categoria profissional e o sindicato pelego permitia que o ofício fosse comumente descrito como “o que o Word faz, só que manualmente”. Injustiça das mais duras de se aceitar.

Os revisores são pessoas puras de coração (ou com poucos amigos, não sei), que corrigem os desvios da forma culta cometidos pelos mais renomados letristas, sem que isso vire tema de comentários. Eis que um copista (ou uma, não sei como era a política de contratação naquela espelunca) bateu o “d” no lugar do “s” e criou uma das maiores tretas da sociedade moderna ao redigir que o trabalho dignifica o homem.

Correria, quem não sabe como é?

Só que o equívoco, que evidencia que o padrão qwerty do teclado já gerava pegadinhas linguísticas há tão distintos anos, gerou também uma distorção na conceituação da revolução industrial. Efeito borboleta, saca?

Imagine que uma letra “d” que escapou ali fez com que a idéia de felicidade pudesse ter sido por tanto tempo associada a jornadas de 16 horas de trabalho. Claro, livre associação do patrão, mas detalhes à parte, veja que curioso como uma simples letra pode transformar tanto o desenvolvimento do modo de produção de uma sociedade.

E ainda, como uma compreensão menos atenta da coisa se tornou um culto ao sofrimento, com um maluco que chegou pra botar ordem na casa e acabou pendurado num varal de madeira (dois milhares de anos cultuando um cadáver em sangue! Jesus! Como podem?).

Sim, porque, de fato, o trabalho é uma das maneiras mais eficazes de o homem poder atribuir algum tipo de valor — de significado — a si mesmo a partir dos atributos percebidos em sua obra. Então não seria razoável — nem mesmo a uma religião que acha prudente escravizar povos e cuidar mais das cabras que das mulheres — acreditar que a dignidade estivesse atrelada de alguma forma ao trabalho. Mas foram poucos que notaram o desvio. Sim, muitos foram os que nesse tempo todo se submeteram a uma regra com erros de redação.

Não que eu esteja criticando os erros de redação. Nem os monges copistas. E nem o teclado Qwerty.

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