Black Sabá

Eu era criança e uma das primeiras coisas que me foram apresentadas foi uma estante de discos de vinil. E aquilo era a árvore do Éden.

— Não mexa. Não bata a bola ali perto. Jamais retire algum disco de lá.

Eram os dez mandamentos (em looping, até dar dez).

Deus era a minha mãe, no caso, que tinha apreço pelas bolachas, que virava e mexia ela ouvia, mas naquela época eu não dava muita bola para a música. Eu me ligava mesmo era nas ordens: sempre fui meio desligado, então não queria dar brecha logo com os discos e correr o risco de ser expulso do paraíso.

E uma ordem se instalou na minha cabeça, que eu ouvia como um zumbido toda vez que chegava perto da estante, que era: “não vá me quebrar o disco do Black Sabá”.

black sabá

E por algum motivo, eu sabia o que era “black”, naquela idade tenra e analfabeta. Mas sabá, eu não associava a nada. Então via um disco com uma pessoa negra sorrindo, na capa, e cristalizei que aquilo era a relíquia da casa. Aquele era o tal do bléque sabá.

Ainda bem que eu não quebrei os demais, pensando que salvando aquele eu estaria bem na fita. Mesmo porque, o “Never Say Die”, do Sabbath, me acompanhou por muitos anos depois de grande, depois que minha mãe foi pra outro paraíso e depois de ter ficado com a saudade pra lustrar os discos e chorar nas músicas.

Deixa a tristeza pra lá.

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