Se as portas da percepção fossem abertas, o mundo pareceria ao homem como realmente é: infinito

Arrancaram a hera do muro e o que se descortinou para mim foi bem mais que o muro todo, em pelo, digo: concreto. Aliás, se for possível atribuir a algo o lampejo do meu caminho à abstração, é ao muro parcialmente coberto pela hera, que eu via todos os dias no caminho de ônibus pra escola.

A data é remota. Algo como 1993 ou 94. E o ônibus era o extinto 3.39 – Guará / Terminal Barão Geraldo. Eu morava em Campinas, interior de São Paulo e fazia o caminho todo dia que era santo e via no muro um trecho de pichação em tinta azul-gasto.

“as portas da perce”

E eu olhava mesmo com curiosidade. Naquela época eu já sabia, por exemplo, que o símbolo do A dentro do círculo, que se pichava, era anarquia e que isso significava que não teríamos mais presidente.

Mas nos muros, além da anarquia, reivindicava-se coisas objetivas, como “Lula lá”, “Fora Collor”, “Luciana, eu te amo”… Coisas que em nada se pareciam com aquela reivindicação vaga semicoberta pelo mato. Aliás, o que era “perce”?

No dia que cortaram as heras, eu estava levando para a escola as fitas de Master System que eu tinha acabado de ganhar. Iria mostrar para os meninos e tudo mais. O ônibus passou rápido pelo muro, eu estava ansioso por chegar, nem reparei.

Fui ver só na segunda, quando esperava pelo enigma das tais portas da perce, e vi que tinha uma frase inteirinha, escrita por alguém sem nenhuma noção de “esquadro” — meu pai era artista plástico, fazia artes em fachadas, eu ouvia essas palavras em casa.

Bem, não preciso dizer que levei bem mais de uma semana pra conseguir ler a frase inteira, dada a velocidade que o ônibus passava e a minha alfabetização ainda precária.

Temi que as heras voltassem a cobrir o muro até que eu pudesse finalmente ler o que aquela pessoa havia escrito.

“Se as portas da percepção fossem abertas, o mundo pareceria ao homem como realmente é: infinito”.

William-Blake-Job-and-his-daughters

Meu tio, quando ficava bêbado, era dado à filosofia. Mandava uns clichês e tal. Mas essa, poxa!, essa eu nunca tinha ouvido nem dele.

E então eu fui esquadrinhando, mastigando e entendendo a frase de mil jeitos. Treze anos, eu tinha.

E o núcleo duro desse quebra-cabeças, a peça que completa, é uma pergunta sem resposta. Dessas que a solução desmonta o paradigma da pergunta.

Eu vivi por muito tempo atrás de métodos, grupos, teorias e deles tenho hoje uma visão bastante objetiva e esclarecida da vida. E mesmo as conversas filosóficas com meu tio e as letras proporcionais do meu pai foram métodos. E não sei se tudo isso deriva da frase do muro ou minha persistência para enxergar através das heras já vem de algo meu, que me acompanha.

Mas ainda roo o osso da pergunta muda:

Quem fechou as portas?

Anúncios

2 comentários sobre “Se as portas da percepção fossem abertas, o mundo pareceria ao homem como realmente é: infinito

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s